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O autocuidado como estratégia política

Tamara_adams.jpg RESUMO
Este artigo cont√©m reflex√Ķes sobre a experi√™ncia da Iniciativa Mesoamericana de Defensoras de Direitos Humanos (IM-Defensoras) e do Cons√≥rcio para o Di√°logo Parlamentar e a Equidade Oaxaca ‚Äď como parte do Grupo Impulsor da IM-Defensoras ‚Äď no trabalho sobre autocuidado que temos realizado desde 2010. Trabalhar sob a perspectiva do autocuidado n√£o s√≥ permite a sustentabilidade dos movimentos sociais, mas tamb√©m constitui uma postura √©tico-pol√≠tica que envolve a an√°lise das pr√°ticas de trabalho e das rela√ß√Ķes estabelecidas em n√≠vel pessoal e coletivo. Este artigo tamb√©m re√ļne a experi√™ncia da Casa La Serena, um espa√ßo de repouso e cura para defensoras dos direitos humanos.

Iniciativa Mesoamericana de Defensoras de Direitos Humanos (IM-Defensoras) foi criada em 2010 com o objetivo de gerar alternativas de proteção, autocuidado e segurança às mulheres que enfrentam em Honduras, na Guatemala, em El Salvador, no México e na Nicarágua o aumento do feminicídio, a diversificação das formas de violência na sociedade, o avanço das transnacionais na desapropriação de terras e de territórios, a precarização dos empregos ou o desemprego, a impunidade e a falta de justiça, bem como o autoritarismo que impera nos governos.

A IM-Defensoras conseguiu visualizar que essas viola√ß√Ķes dos direitos humanos seriam mais agudas nos pr√≥ximos anos e, com isso, os n√≠veis de demanda para as defensoras que j√° atendiam a uma multiplicidade de necessidades que, em muitos casos, excediam nossas energias, gerando percep√ß√Ķes e sentimentos de coragem, impot√™ncia, raiva, preocupa√ß√£o, medo, terror, desespero e solid√£o. Al√©m do desconforto f√≠sico derivado dessas emo√ß√Ķes e de nossa pr√≥pria neglig√™ncia para atender aos pedidos de ajuda demais pessoas.

Alguns dados do Diagnóstico 2012. Violencia contra Defensoras de Derechos Humanos en Mesoamérica1 ilustram o que dizemos:

‚Äď De 2010 a 2012, oito das 10 defensoras enfrentaram uma doen√ßa.

‚Äď Cinco de cada 10 defensoras n√£o estavam satisfeitas com o tempo que passavam com seu parceiro e seus filhos ‚Äď quando os tinham.


Por meio desses dados, constatamos uma profunda negligência com a vida diária de muitas defensoras como resultado do compromisso com as causas que defendem e, com base no autocuidado, tentamos gerar uma reflexão-ação que alcança um equilíbrio e que permite pensar sobre nós mesmas sem culpa.

Os princípios do autocuidado
Dentro do Grupo Impulsor inicial da IM-Defensoras, constituído por Asociadas por lo Justo (JASS), Asociación por los Derechos de las Mujeres y el Desarrollo (AWID), Consorcio para el Diálogo Parlamentario y la Equidad Oaxaca A.C. (Consorcio Oaxaca), Colectiva Feminista para el Desarrollo Local de El Salvador, Fondo Centroamericano de Mujeres (FCAM) e Unidad de Protección a Defensoras y Defensores de Derechos Humanos (UDEFEGUA),2 foi decidido fortalecer a estratégia de autocuidado como elemento indivisível da proteção integral para defensoras com uma abordagem feminista.

Para alcançar o que indicamos, a partir do Consorcio Oaxaca, a organização responsável da estratégia de autocuidado na IM-Defensoras, assumimos duas ideias fundamentais do movimento feminista:

O pessoal √© pol√≠tico. Essa m√°xima nos orienta na reflex√£o acerca da import√Ęncia de nos vermos como sujeitos pol√≠ticos do sexo feminino que praticam para si o que desejam para outras pessoas.

Nesse sentido, a partir do autocuidado procedemos a uma revis√£o pessoal e uma reflex√£o sobre o modo como desenvolvemos a defesa dos direitos humanos ou o ativismo: as cargas de trabalho que temos s√£o aquelas que desejar√≠amos para as pessoas que apoiamos? O modo como nos relacionamos com nossas/os companheiras/os de luta √© aquele que acreditamos que ajuda na transforma√ß√£o social? Isto √©, por meio desse tipo de reflex√Ķes tentamos concretizar nossos discursos a favor da vida das pessoas no cotidiano.

Qual √© o sentido da revolu√ß√£o se n√£o podemos dan√ßar.3 Esta frase, que d√° t√≠tulo a um dos livros que inspiraram o desenvolvimento da estrat√©gia de autocuidado na IM-Defensoras, √© atribu√≠da √† anarquista Emma Goldman, que, diante da censura de um de seus companheiros pela dan√ßa ‚Äúinadequada‚ÄĚ, apontou: ‚ÄúSe n√£o se pode dan√ßar, sua revolu√ß√£o n√£o me interessa‚ÄĚ.4 Com esta frase, reivindicamos o direito das defensoras ao gozo, prazer e usufruto de seu pr√≥prio corpo.

Depois de mais de sete anos de exist√™ncia da IM-Defensoras, continuamos a afirmar que o conceito de autocuidado se encontra mais vigente do que nunca, porque os contextos em nossos pa√≠ses e as condi√ß√Ķes em que as defensoras realizam seu trabalho continuam sendo alarmantes. Por exemplo, no M√©xico:

[‚Ķ] as amea√ßas constantes, os ataques, o ass√©dio sexual e as campanhas de difama√ß√£o contra as ativistas causam altos n√≠veis de estresse, fadiga, depress√£o, ansiedade, enxaquecas e, ainda, diagn√≥sticos de c√Ęncer cada vez mais frequentes.5

Essas amea√ßas levam a sa√ļde e o bem-estar daqueles que defendem os direitos humanos a ser afetados. Na verdade, no M√©xico, 91% das defensoras dos direitos humanos convivem com o estresse em seu cotidiano.

Tal estresse n√£o √© gerado apenas pelos riscos que enfrentamos dentro do movimento social ou por ataques ou amea√ßas do Estado, de empresas, de narcotraficantes ou de outros atores, mas tamb√©m pelas condi√ß√Ķes prec√°rias nas quais realizamos o trabalho de defesa dos direitos humanos: 80% das defensoras em nosso pa√≠s n√£o recebem sal√°rio por esse trabalho para o qual dedicam mais de oito horas di√°rias, por isso devem buscar outros empregos para cobrir suas despesas di√°rias, o que eleva n√£o apenas suas cargas de trabalho, mas seu desgaste f√≠sico, mental, emocional, energ√©tico e psicol√≥gico.

√Č com base no exposto que, a partir da IM-Defensoras e do Consorcio Oaxaca, o autocuidado e o cuidado coletivo fazem parte de uma estrat√©gia abrangente de prote√ß√£o que gera bem-estar, acompanhamento e respeito m√ļtuo para nossos corpos, nossas companheiras e outras organiza√ß√Ķes. O que, sem d√ļvida, possibilita a sustentabilidade dos movimentos sociais dos quais fazemos parte, uma vez que falar de autocuidado significa ter um compromisso √©tico e uma posi√ß√£o pol√≠tica, cujos princ√≠pios para n√≥s s√£o:

Os espa√ßos para a defesa dos direitos humanos e do ativismo n√£o s√£o id√≠licos. √Č importante saber que nossos espa√ßos de trabalho, em muitos casos, tamb√©m s√£o permeados por uma cultura machista, patriarcal, de explora√ß√£o e/ou autoexplora√ß√£o. √Č necess√°rio estar em permanente revis√£o e desconstru√ß√£o do que aprendemos ao longo de nossa vida e que, embora em nossos discursos apostemos no contr√°rio, eles se reproduzem constantemente. Por essa raz√£o, √© vital n√£o idealizar nem demonizar nossas organiza√ß√Ķes e/ou nossos movimentos, mas mant√™-los em constante reflex√£o para que venham a ser os espa√ßos que imaginamos.

A revis√£o pessoal tamb√©m √© fundamental. Byung-ChulHan, em seu livro Psicopol√≠tica,6 falou sobre essa caracter√≠stica atual do sistema capitalista: de n√£o precisar de um opressor externo, mas de construir dentro de cada uma de n√≥s nosso pr√≥prio tirano, exigindo cada vez mais de n√≥s. Essa maneira efetiva de funcionamento do capital gera a dificuldade de lutar contra ele, pois se mostra difuso quem √© o opressor ou a situa√ß√£o opressiva a ser transformada. Por tal raz√£o, questionar em n√≥s mesmas os mandatos patriarcais ou capitalistas, como, por exemplo, ‚Äúser para os outros‚ÄĚ ou ‚Äútrabalhar um pouco mais, sempre mais‚ÄĚ, s√£o cruciais sob a perspectiva do autocuidado.

A defesa dos direitos humanos ou do ativismo n√£o √© um sacrif√≠cio. Devido aos contextos caracterizados pela viol√™ncia em que vivemos, √© comum pensar que √© muito importante ‚Äúdar um pouco mais‚ÄĚ no ativismo, pois isso pode mudar o rumo das coisas. No entanto, por meio desse princ√≠pio, convidamos √† reflex√£o sobre se, na verdade, o que precisamos fazer, n√£o pode esperar que paremos para comer, dormir, descansar, dedicar um pouco de tempo √† divers√£o. Vale mencionar que produtividade n√£o √© igual √† criatividade ou efic√°cia. Em diversas ocasi√Ķes, na √Ęnsia de fazer mais coisas, acabamos f√≠sica e mentalmente exauridas, o que inibe nossa capacidade de resposta e de aten√ß√£o.

O bem-estar n√£o √© um privil√©gio, mas um direito. Para muitas ativistas e defensoras, pensar em um momento de reflex√£o √© um privil√©gio diante dos contextos que enfrentam. √Č por isso que convidamos as/os leitoras/es a refletir sobre a necessidade desses momentos para distra√ß√£o, desafogo, renova√ß√£o e fortalecimento. No √Ęmbito do conceito de prote√ß√£o integral, no qual situamos o enfoque do autocuidado para as defensoras dos direitos humanos, refletimos sobre experi√™ncias nas quais as companheiras, devido ao n√≠vel de fadiga e desgaste, n√£o conseguiram perceber diversos incidentes de seguran√ßa ou expuseram-se mais do que o necess√°rio. Junto com o exposto, √© comum que em nossos ritmos de trabalho estejamos constantemente estressadas ‚Äč‚Äče, por vezes, em situa√ß√£o de raiva devido √†s tens√Ķes que enfrentamos, ou tristes devido aos casos que devemos acompanhar. Esses humores afetam as din√Ęmicas de afetividade e de relacionamento nas organiza√ß√Ķes em que trabalhamos e, em geral, causam conflitos com as pessoas mais pr√≥ximas. Cabe rever se o trabalho que fazemos contribui com a transforma√ß√£o social, mas se isso n√£o ocorre √†s custas de nossa capacidade de conviv√™ncia.

Nem dinheiro nem tempo s√£o fatores limitantes. Em muitas ocasi√Ķes, as defensoras e ativistas a quem propomos a ideia do autocuidado acreditam que isso pode significar um gasto consider√°vel de dinheiro. Em oposi√ß√£o a isso, vale a pena mencionar que apostamos em uma reavalia√ß√£o dos saberes locais, o contato com a natureza, momentos pr√≥prios √† reflex√£o, exerc√≠cios de respira√ß√£o, apropria√ß√£o do corpo e do prazer etc, elementos que √†s vezes t√™m mais a ver com disposi√ß√£o do que com recursos econ√īmicos. No entanto, isso n√£o tira a responsabilidade das organiza√ß√Ķes e/ou financiadoras de destinar fundos para gerar reflex√Ķes e a√ß√Ķes conjuntas acerca dessa quest√£o dentro de cada espa√ßo de defesa dos direitos humanos.

Cada pessoa sabe do que precisa. No tema do autocuidado, n√£o √© poss√≠vel saber o que ajuda outra pessoa a se sentir em estado de bem-estar; √© necess√°rio falar sobre o assunto, mas cada um ‚Äď pessoa, organiza√ß√£o, coletivo ‚Äď define o que √© exigido por meio de uma escuta sincera de suas necessidades. Alcan√ßar isso n√£o √© algo f√°cil. Como defensoras dos direitos humanos estamos muito acostumados √† an√°lise e reflex√£o, deixando nosso corpo de lado, o que gera uma desconex√£o conosco e com as outras pessoas.

O autocuidado √© pessoal e coletivo. Mostra-se importante que nossas organiza√ß√Ķes ‚Äď quando existem ‚Äď possam lan√ßar as bases para a reflex√£o acerca do autocuidado e gerar pol√≠ticas que contribuam para gerar uma cultura nesse sentido: respeitar os dias e os hor√°rios de trabalho, estabelecer per√≠odos de descanso, gerar mecanismos de resolu√ß√£o de conflitos etc. Esse princ√≠pio do autocuidado est√° ligado √† ideia de que as emo√ß√Ķes s√£o sentidas por n√≥s n√£o apenas pelo fato de sermos humanas, mas pelo fato de vivermos coletivamente, de estarmos em constante rela√ß√£o com as pessoas.

Com base em nossa experi√™ncia na IM-Defensoras e no Consorcio Oaxaca em aten√ß√£o √†s mulheres v√≠timas de viol√™ncia e √†s defensoras em risco e sob desgaste cr√īnico, consideramos necess√°rio observar as defensoras e as organiza√ß√Ķes de direitos humanos a partir de uma perspectiva integral. Para n√≥s, tal perspectiva inclui um n√≠vel pessoal e coletivo, uma dimens√£o f√≠sica, psicol√≥gica, mental, energ√©tica e espiritual:

DIMENSÃO NO PESSOAL NO ORGANIZACIONAL

F√≠sica Pode ser entendido como o estado de sa√ļde e o que fazemos para atender √†s demandas de nosso corpo: alimenta√ß√£o, sono, descanso, revis√£o m√©dica etc. Refere-se √† instala√ß√Ķes e espa√ßos de trabalho adequados e am√°veis para os quais trabalhamos: estado do mobili√°rio, condi√ß√Ķes de seguran√ßa, entre outros.

Psicol√≥gica Tem a ver com a forma como o trabalho realizado afeta o autoconceito das pessoas: sentir-se mais ou menos segura, sentindo-se mais ou menos capaz de fazer o trabalho. Refere-se √†s avalia√ß√Ķes que fazemos em rela√ß√£o ao trabalho coletivo que √© realizado e seu escopo e pode ser traduzido em ideias como: a organiza√ß√£o n√£o est√° fazendo o suficiente, meus colegas n√£o d√£o tudo o que deveriam dar, n√£o h√° compromisso suficiente com nossa causa.

Mental Refere-se ao que incentiva nossos aprendizados e conhecimentos e permite que atuemos melhor em termos profissionais em nosso trabalho como defensoras. Faz menção aos cursos, às oficinas, aos seminários etc, que coordena ou nos quais a organização participa para fortalecer seu trabalho.

Energ√©tica Em muitas ocasi√Ķes, sofremos um desgaste energ√©tico que se traduz em uma sensa√ß√£o de fadiga, apesar de dormir v√°rias horas, uma sensa√ß√£o de tristeza ou desgosto que, aparentemente, n√£o tem um fundamento. Essa dimens√£o pode ser lida em termos de organiza√ß√Ķes como ‚Äúambiente de trabalho‚ÄĚ: tens√£o entre as integrantes da organiza√ß√£o, alegria entre elas, etc.

Espiritual Tem a ver com as cren√ßas de cada pessoa, n√£o apenas em termos religiosos, mas no sentido da vida. Referimo-nos aos valores e √†s cren√ßas que regem as a√ß√Ķes da organiza√ß√£o.

Embora o autocuidado pessoal e coletivo n√£o elimine definitivamente o estresse, n√£o dilua as rivalidades para sempre, n√£o melhore nossos espa√ßos de trabalho modo permanente, estamos convencidas de que nos oferece ferramentas para enfrentar o conflito, para falar sobre isso, para pensarmos; para ver com outro olhar as tens√Ķes e os obst√°culos que surgem na defesa dos direitos humanos, sem julgar outras pessoas que fazem o mesmo, mas compreendendo por que o fazem e estando conscientes do que suas a√ß√Ķes geram para n√≥s. N√£o pretendemos idealizar o autocuidado.

Sabemos que, mesmo com ele, h√° coisas que n√£o gostamos que continuem a acontecer, mas a forma como as abordamos ser√° diferente. N√£o queremos que o autocuidado se torne um fardo ou uma culpa por n√£o se ter feito o suficiente, porque estamos convencidas de que as rela√ß√Ķes humanas, em sua complexidade, sempre imp√Ķem desafios, no entanto, acreditamos que quanto mais ferramentas tivermos para passar por eles, melhor ser√°. Confiamos na pausa e no descanso para ser compassivas com nossos contratempos e para seguir caminhando.

Casa La Serena: um espaço de autocuidado, cuidado e bem-estar das defensoras

Ap√≥s v√°rios anos de reflex√£o sobre o autocuidado, reafirmando constantemente sua import√Ęncia e analisando as mudan√ßas quando h√° uma apropria√ß√£o desse enfoque, em agosto de 2016, n√≥s da IM-Defensoras e do Consorcio Oaxaca criamos a Casa La Serena,7 um projeto de estadias para as mulheres que pertencem a uma das redes nacionais de defensoras que foram criadas em Honduras, na Guatemala, em El Salvador, na Nicar√°gua e no M√©xico com dura√ß√£o de dez dias em Oaxaca (M√©xico). O objetivo dessas estadias √© pagar pela recupera√ß√£o, pela cura, pelo descanso e pela reflex√£o de defensoras dos direitos humanos que passam por situa√ß√Ķes de extrema fadiga, desgaste emocional ou f√≠sico, crises pessoais, duelos, perdas ou outros impactos derivados do contexto de viol√™ncia e a cultura patriarcal, que dificultam e impedem seu trabalho de defesa.

A Casa La Serena trabalha com a abordagem de integralidade anteriormente discriminada. Uma defensora de cada país membro da IM-Defensoras que tem a oportunidade de estar nessa casa desfruta durante sua estadia:

Terapia de cura. Terapia psicológica, tanatologia, ioga, antiginástica,8 manejo de energia e alinhamento do chacras, técnicas de respiração, massagem neuromuscular, programa nutricional, terapia de florais de Bach, reflexologia, herbalismo, limpas e temazcal. Cuidados médicos e ginecológicos com alopatia, homeopatia e medicina chinesa.

Atividades de conviv√™ncia e reflex√£o. Caminhadas no campo, prepara√ß√£o e refei√ß√Ķes coletivas, conversas sobre seu trabalho como defensoras, prote√ß√£o integral e ativismo saud√°vel.

Oficinas de criatividade. Barro, cer√Ęmica, terapia narrativa, semeadura e dan√ßas circulares.

Esses três eixos são articulados em um programa de cuidados que é construído a partir de uma entrevista diagnóstica com as defensoras que realizam a estadia na Casa La Serena. Isso nos permite atender melhor às suas necessidades.

O acompanhamento durante as estadias √© uma responsabilidade da equipe do Consorcio Oaxaca e de uma rede de cerca de 15 terapeutas especializadas em suas disciplinas, com quem compartilhamos o que √© o enfoque de prote√ß√£o feminista para defensoras e qual √© a import√Ęncia do trabalho de defesa dos direitos humanos.

Estar na Casa La Serena envolve um trabalho pessoal muito intenso, porque todas as terapias, atividades e oficinas est√£o focadas em nossa auto-observa√ß√£o. √Č, sem d√ļvida, um processo prazeroso e doloroso ao mesmo tempo, pois implica ‚Äúrealizar‚ÄĚ e imaginar outros modos de ser e de relacionar-se.

Para n√≥s, √© extremamente importante que, al√©m de identificar alguns elementos que precisam ser trabalhados em n√≠vel pessoal ou coletivo, as defensoras deixam a Casa La Serena com um Plano de Autocuidado que seguimos para garantir que a estadia possa ser traduzida em mudan√ßas concretas, de acordo com seu contexto e suas possibilidades reais, porque pode ser que proponham a√ß√Ķes motivadas pela experi√™ncia que possam ser extremamente ben√©ficas, mas para as quais n√£o possuem recursos suficientes, nesse sentido, elaboramos uma s√©rie de perguntas que ajudam a ver quais a√ß√Ķes efetivas ou rotas de autocuidado podem ser alcan√ßadas e como isso pode ocorrer.

A título de conclusão
Acreditamos que o autocuidado √© uma abordagem que fortalece a sustentabilidade, a criatividade e o bem-estar de nossos movimentos sociais. Convida-nos a estabelecer um novo relacionamento conosco, com outras pessoas e com a natureza. Sabemos que n√£o √© uma ‚Äúmoda‚ÄĚ, mas uma estrat√©gia pol√≠tica, feminista e transgressiva que nos ajuda a caminhar de maneira amorosa e coletiva nos agitados tempos atuais.

Decerto, isso não é fácil e implica reconhecer nossas próprias vulnerabilidades e não apenas aquelas das pessoas que acompanhamos, e isso se mostra um desafio, considerando o valor dado à firmeza e mesmo ao heroísmo dentro de nossos movimentos sociais. Nesse contexto, acreditamos que é importante questionar essas características, não porque sejam ruins a priori, mas porque nos levam a níveis muito elevados de autoexigência, que muitas vezes nos colocam em maiores riscos. Estamos convencidas de que novas formas de fazer ativismo e defesa dos direitos humanos estão sendo geradas em todas as partes do mundo e que serão mais poderosas na medida em que recuperamos a confiança em nossas colegas, criamos redes e estejamos conscientes de que há muitas mulheres criando novas formas de ser e estar no mundo.

Ana Mar√≠a Hern√°ndez C√°rdenas ‚Äď M√©xico
Integra a equipe diretiva e fundadora do Cons√≥rcio para o Di√°logo Parlamentar e a Equidade Oaxaca AC. √Č Coordenadora geral da Casa La Serena e respons√°vel pela estrat√©gia de autocuidado da Iniciativa Mesoamericana de Mulheres Defensoras de Direitos Humanos.

Nallely Guadalupe Tello M√©ndez ‚Äď M√©xico
Integra a equipe de trabalho do Cons√≥rcio para o Di√°logo Parlamentar e a Equidade Oaxaca AC, e da Casa La Serena. √Č coordenadora do Grupo de Autocuidado da Rede Nacional de Defensoras de Direitos Humanos no M√©xico.

Fonte: Geledes.org

Ilistração: Tamara Adams

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