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Você acha engraçado, mas é racismo

download_2.jpg Esses dias me deparei com uma situa√ß√£o explicitamente racista, o cl√°ssico: Num aeroporto um homem branco ap√≥s anunciar que ali era um espa√ßo de viajantes profissionais advogados, executivos, assessores, me pergunta o que eu fazia ali, se por acaso eu, mulher-negra, era cantora‚ĶVeja bem: todas as outras pessoas brancas naquele espa√ßo, foram lidas como profissionais de sucesso na sociedade capitalista e do conhecimento com atua√ß√Ķes que a princ√≠pio requeriam um intenso per√≠odo formativo, acad√™mico e lidas socialmente como atividades intelectualizadas, mas a mulher negra ocupa o lugar do ex√≥tico e da fantasia e j√° que eu n√£o era a mo√ßa da limpeza, estar ali n√£o podia ser pelos mesmos meios que as demais pessoas brancas, ent√£o volta √†quele racioc√≠nio: gente preta se n√£o t√° limpando, t√° cantando ou sambando.

Não existe nenhum problema em cantar e ou sambar, mas é preciso levar em conta que vincular pessoas negras apenas a esses papéis só é possível devido articulação de uma percepção racista e reducionista que impede as pessoas de perceberem as pessoas negras ocupando outros lugares na sociedade, e esse é o problema, de um poderoso estereótipo racista que confina as pessoas negras a lugares exotificados e/ou subalternos da sociedade, e como todo poderoso estereótipo, é tao naturalizado que é assumido como verdade indiscutível.

Num pa√≠s em que a maior parte da popula√ß√£o √© negra, em que a popula√ß√£o negra ocupa os piores indicadores econ√īmicos e sociais: as piores taxas de emprego, renda, alfabetiza√ß√£o, acesso a sa√ļde, lazer, de fato n√£o √© de se espantar que as pessoas achem gra√ßa numa atitude racista, afinal, o lugar do povo preto no Brasil √© esse: o da subalternidade; e ningu√©m questiona isso.E √© exatamente disso que se trata: assumir uma postura antirracista significa questionar o que parece l√≥gico e natural, significa se insurgir contra os lugares pre-determinados para a popula√ß√£o negra, significa perceber que n√£o √© piada, n√£o √© brincadeira, √© racismo,

Não é brincadeira, nem é engraçado ser menina e mulher negra e decidir usar o cabelo solto e sempre ser chamada de globeleza;

Não é divertido ser menina preta na escola e ser chamada de cabelo de assolan,

Não é engraçado quando todas as pessoas podem ser lidas como profissionais e acadêmicas e a mulher negra só é enxergada como babá, moça da limpeza, cantora ou dançarina;

Não é piada ser mulher negra e todas as vezes exaustivamente ser seguida nas lojas porque pensam que você pode roubar;

Não é engraçado quando falam que a pessoa preta não vai aparecer na foto porque ela é muito escura;Nada disso é graça, piada, brincadeira, diversão. Tudo isso é racismo, e precisamos despertar a nossa capacidade de enxergá-lo para então enfrentá-lo. Existem perguntas a serem respondidas: Por que pessoas negras não podem ser percebidas a partir da mesma métrica usada para a população branca? Por que você não consegue identificar as mesmas potencialidades para as pessoas negras que você consegue enxergar nas pessoas brancas? Por que você não consegue imaginar as pessoas negras ocupando todos os lugares na sociedade?

Quando conseguir responder a essas quest√Ķes vai perceber que tudo isso que voc√™ acha engra√ßado. e divertido agoranada mais que perversas reitera√ß√Ķes de um conte√ļdo racista que limita, violenta e destitui a popula√ß√£o negra brasileira do seu direito a uma vida plena, do seu direito a um Bem Viver.

Por Viviana Santiago do Blog Palavra de Preta

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