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Por que falar da escravid√£o do Brasil em quadrinhos?

150722_calunga20_485x340.png Por Carolina Ito,

A princ√≠pio, pode parecer estranho ou duvidoso lidar com temas hist√≥ricos utilizando a linguagem dos quadrinhos, afinal, o desenho √© uma express√£o que recorre √† subjetividade do artista, √† fic√ß√£o e √† liga√ß√£o entre os imagin√°rios do autor e do leitor. Mas o quadrinista e pesquisador Marcelo D‚ÄôSalete, autor da HQ Cumbe (Veneta, 2014), n√£o parece se intimidar com esse tipo de quest√£o. Para ele, a fic√ß√£o √© importante justamente por trazer outro ponto de vista diante de um cen√°rio em que a maioria dos relatos hist√≥ricos foi feita pelo mesmo grupo social ‚Äď no caso, o de homens brancos da elite. E arremata: ‚Äúprecisamos da fic√ß√£o para imaginar novas possibilidades de leitura a partir de outros atores sociais‚ÄĚ.

Cumbe traz contos de resist√™ncia, de personagens negros escravizados que sofrem os mais variados tipos de viol√™ncia e que, na conviv√™ncia com o fantasma da pr√≥pria morte, buscam sa√≠das. Longe de qualquer sensacionalismo em rela√ß√£o √†s condi√ß√Ķes de vida dos escravos, o autor usa a poesia para mostrar essas sa√≠das, que v√£o desde o combate armado at√© o puro del√≠rio. Poesia que se materializa mais em forma de tra√ßos, s√≠mbolos e met√°foras do que propriamente em textos. Cumbe √© uma HQ silenciosa que tem como plano de fundo a solid√£o.

Marcelo D‚ÄôSalete √© mestre em hist√≥ria da arte pela Usp e publica quadrinhos h√° cerca de 15 anos. Em 2015, foi indicado ao Trof√©u HQMIX em tr√™s categorias: melhor desenhista, roteirista e melhor edi√ß√£o especial nacional. Tamb√©m √© autor de Noite Luz (Via Lettera , 2008), Encruzilhada (Leya, 2011) e Risco (Cachalote, 2014), livros em quadrinhos que t√™m em comum a aten√ß√£o para os conflitos das grandes cidades, que acabam perpassando conflitos raciais. D‚ÄôSalete considera que ‚Äúo Brasil naturaliza e muito as rela√ß√Ķes sociais e √©tnico-raciais‚ÄĚ e que o descaso das autoridades em rela√ß√£o ao assassinato de jovens negros na periferia √© um exemplo disso.

O di√°logo com hist√≥rias do passado n√£o serve apenas para entender o presente, mas tamb√©m, para construir novas representa√ß√Ķes de identidade. Para ele, ‚Äúexiste uma necessidade dos grupos negros atuais constru√≠rem refer√™ncias interessantes para pensar seu passado‚ÄĚ e as hist√≥rias em quadrinhos podem contribuir para isso.

Como foi processo de pesquisa histórica para compor as histórias de Cumbe? Quando ele teve início?

O livro Cumbe começou a partir de pesquisas sobre a escravidão no Brasil colonial. Mais do que dados quantitativos, minha intenção era falar da perspectiva dos africanos escravizados, mostrando seus modos de resistência, desde a busca mais individual até as formas de luta coletiva. Há poucas histórias desse tipo em formato de HQ e tentei mostrá-las de um jeito mais pessoal.

As primeiras pesquisas come√ßaram em 2006. Nos anos seguintes trabalhei no roteiro e, a partir de 2011, fiz os esbo√ßos e desenhos finais. A fic√ß√£o, neste caso, tem grande import√Ęncia, pois muitos dos relatos sobre o Brasil colonial foram feitos apenas por homens brancos. Precisamos da fic√ß√£o para imaginar novas possibilidades de leitura a partir de outros atores sociais.
Por que falar de histórias da escravidão depois de 127 anos da abolição?
Minha intenção em Cumbe é suscitar novas formas de compreender o passado de africanos escravizados no Brasil. As cicatrizes causadas pela escravidão ainda são pouco discutidas e compreendidas por aqui. O Brasil é um país extremamente desigual e racista e isso está intimamente relacionado com seu passado. Não podemos continuar considerando a escravidão como algo harmonioso em nossa história, pois a resistência de muitos africanos negros também fez parte daquele período.

Qual foi sua maior preocupação como quadrinista e pesquisador ao lidar com esse tema?

Em Cumbe foi preciso realizar uma pesquisa para compreender o período e encontrar a forma mais interessante de mostrar o tema. Os casos sobre escravidão em registros policiais eram importantes, mas ainda era preciso mais. Por esse motivo estudei as características culturais dos africanos de origem banto que chegaram no Brasil colonial. As palavras de origem banto (do kimbundo, umbundo etc.) foram importantes para trazer esses traços culturais. Estudei sobre a arte dos povos tchokwe, do nordeste de Angola, suas esculturas, símbolos sona, marcas… Não podemos esquecer de divindades relevantes como Calunga (entidade relacionada ao mar e a morte) e Zambi (o grande criador) também. Pesquisar esses elementos era essencial para construir os personagens.

A HQ Cumbe dialoga com os conflitos raciais na atualidade? Como?

Existe uma necessidade dos grupos negros atuais construírem referências interessantes para pensar seu passado, por esse motivo, não me interessava representar negros e negras apenas como atores passivos. Mesmo subjugados socialmente, havia certo protagonismo e negociação nesse sistema. Essa busca por protagonismo é algo que está presente em nossa história recente.
O Brasil naturaliza e muito as rela√ß√Ķes sociais e etnico-raciais.

O assassinato de jovens negros na periferia mostra o descaso das autoridades quanto ao futuro dos seus jovens. Grande parte da popula√ß√£o negra est√° nos estratos mais pobres da sociedade e isso √© visto com absurda normalidade. √Č preciso imaginar novas formas de representar esse grupo e as HQs podem colaborar nesse sentido.

Como você considera a atuação/representação do negro nas histórias em quadrinhos, em geral?

Temos poucos exemplos de quadrinhos que focam essa perspectiva de modo interessante, longe dos velhos estere√≥tipos. O pesquisador Nobu Chinen tem uma tese muito interessante sobre a representa√ß√£o negra nas HQs nacionais. Ele demonstra como, durante longo per√≠odo, os personagens negros foram apresentados de modo simplificado e socialmente inferior, uma t√≠pica vis√£o da elite, da casa grande, sobre os demais grupos sociais. No entanto, nas √ļltimas d√©cadas, novas narrativas est√£o surgindo.

O trabalho do Maur√≠cio Pestana √© um exemplo hist√≥rico muito interessante. Suas charges s√£o extremamente fortes para discutir racismo e discrimina√ß√£o. Mais recentemente tem o livro Chibata, sobre o Jo√£o C√Ęndido [l√≠der negro da Revolta da Chibata, que ocorreu em 1910], as narrativas do Andr√© Diniz e a HQ africana Aya. Est√£o surgindo autores novos interessados em discutir temas relacionados √† hist√≥ria negra brasileira e este √© um momento importante.

Entretanto, além dessas histórias negras se tornarem temas relevantes, é importante ter autores negros criando histórias. Garantir essa perspectiva é muito relevante artística e socialmente. Não podemos ter apenas um mesmo grupo falando de nossas histórias.

Qual a diferença entre trabalhar com uma obra em quadrinhos inteiramente de ficção e uma obra que se baseia na História?

As histórias dos livros Noite Luz (2008), Encruzilhada (2011) e Risco (2014) surgiram a partir de observação, notícias de jornal e conversas com amigos. Em geral, anoto as ideias em um caderno ou arquivo. Depois, revejo quais dessas ideias podem ser organizadas numa narrativa. A pesquisa, nesses casos, era menor, pois tudo dependia de uma boa observação do entorno. Já no livro Cumbe percebi desde o início que não podia trabalhar do mesmo modo. Qualquer narrativa que imaginasse seria menor do que as possibilidades das histórias registradas. Desse modo, fui atrás de registros e fatos envolvendo africanos e negros escravizados no Brasil colonial. A partir desses primeiros fatos foi possível criar os personagens, cenas e histórias.

Seus trabalhos anteriores também envolviam temáticas semelhantes? Há quanto tempo trabalha com quadrinhos?

Realizo e publico quadrinhos há cerca de 15 anos. Comecei nas revistas Quadreca e Front e minhas histórias e traço representam geralmente conflitos em grandes cidades. Essas narrativas mostram conflitos a partir de experiências de personagens razoavelmente à margem da sociedade, como trabalhadores pobres, desempregados, jovens negros, mendigos, ambulantes. De certo modo, há uma linha narrativa que costura o Brasil colonial com nossa realidade social atual. A questão da exclusão de grande parcela da população negra e da manutenção do poder na mão de uma elite pretensamente branca unem esses vários períodos da história.

Em uma das p√°ginas da HQ Cumbe h√° uma poss√≠vel releitura do quadro ‚ÄúO beijo‚ÄĚ do Gustav Klimt. Voc√™ utiliza outras refer√™ncias art√≠sticas (de quadrinhos ou outras vertentes) ao longo da obra?

Tenho grande interesse por artes pl√°sticas e arte da √Āfrica. No livro, h√° muitas refer√™ncias aos s√≠mbolos de origem africana, principalmente dos tchokwe de Angola. A escultura cabinda, o s√≠mbolo sona, al√©m de estudos de obras (de artistas como Franz Post, Albert Eckout etc.) foram importantes para criar uma visualidade mais pr√≥xima da √©poca. √Äs vezes, essa influ√™ncia surge de modo indireto, como √© o caso da semelhan√ßa com Klimt. Trabalhei por alguns anos no Museu Afro Brasil em S√£o Paulo. Conhecer o seu acervo de artistas, assim como sua biblioteca, foi muito importante para esses trabalhos.

Já está pensando em um próximo projeto?

Meu projeto atual é fazer uma HQ de cerca de 350 páginas sobre o Quilombo dos Palmares. Este é o meu principal interesse no momento. Palmares foi um dos grandes fatos do século XVII e essa HQ é mais uma possibilidade de leitura daquele momento. Pretendo ter o livro pronto até ao final de 2016.


Informação: Geledes.org

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